Até agora, não consigo explicar a posição de Lula sobre o Irã. Por que se precipitar e dizer que as manifestações eram brigas de vascaínos contra flamenguistas?
Naquele momento, os principais líderes mundiais sinalizaram preocupação e cautela. As apurações iranianas que levam uma semana para serem tabuladas, foram resolvidas em horas. Em Tabriz, terra de Moussavi, Ahmamenijad ganhou longe, o que não costuma acontecer.
Esses dados já estavam disponíveis. Depois da declaração, vieram outros mais embaraçosos: em mais de 30 cidades, o número de eleitores superou o de inscritos. Em Taft, o número de eleitores, segundo a oposição, elevou-se a 141 por cento: fantasmas.
Não era necessário manifestar simpatia pela oposição. Simplesmente cautela. Tanto o presidente, como o Itamaraty, não receberam bem as críticas sobre a visita de Ahmadinejad. Aproveitaram para dizer que a visita estava de pé. E para mostrar independência em relação a imprensa ocidental. Se ela diz uma coisa, pode ser que esteja acontecendo outra.
O Brasil quer se mostrar pragmático, disposto a tudo por um bom negócio. Mesmo bons negociantes a quem se pede, a todo instante, o sacrifício de princípios, precisam saber se calar.
Não havia grandes mudanças em gestação. No Irã, às vezes, o resultado das urnas pode ser sufocado pela revolução. Mas alinhar-se aos setores mais conservadores, considerar uma luta, que depois resultaria em mortes, como um simples choque de torcidas, é qualquer coisa pra lá de Teerã.
Os iranianos que fazem seu movimento também pela internet sabem que nem todos no Brasil se alinham, nesse caso, com a posição de Lula. Muitos relógios estão sintonizados com a hora de Teerã:+3:30 GMT.
The Guardian fala em 500 mil pessoaa nas ruas de Teerã, mas o mais interessante é a noticia de que em 30 cidades o número de votos excedeu ao número de inscritos.
Em Taft houve 140 por cento de votantes. Por isso se fala tão claramente em fraude. No primeiro dia, falamos que o resultado saiu rápido demais. A vitória de Ahmadinejad em Tabriz, terra de seu adversário, também foi muito suspeita.
O pior é o fato de Lula ter dito que não houve fraude e que as manifestacoes eram briga de vascaínos e flamenguistas.
Uma pena ninguém ter dado um toque nele. O Itamaraty sabe do que se passa. A política hiperrrealista passa por agrados a ditadores e omissão na defesa dos direitos humanos
Assista abaixo o vídeo postado no Youtube com a manifestação da oposição nesta quarta-feira, em Teerã.
As manifestações no Irã continuam ao longo do dia. Tudo indica que a situação não foi resolvida e é preciso cautela, pois a repressão matou sete manifestantes. A investigação prometida não passará da recontagem de alguns votos.
Ancorada na internet (a imprensa estrangeira está sob cerco), a resistência no Irã deve continuar. Obama tem se mostrado cauteloso. Lula, não. Ele afirma que não houve fraudes e compara as manifestações a brigas entre torcedores do Flamengo e do Vasco.
Esta banalização da política acaba se tornando cansativa. O presidente não foi informado de tudo que se passa no Irã, apesar da riqueza de dados na rede. Fomos buscar uma foto no Flickr e surgiram centenas de contribuições dos iranianos.
Uma parte do Brasil não está seguindo o que se passa no mundo. O governo brasileiro, ideologicamente favorável a Ahmadinejad, não percebe o potencial das manifestações em Teerã. Pior para nós.
Acabo de sair de um seminário de relações Brasil-Europa. Pelo Congresso brasileiro falou Mão Santa, representando Sarney. Procurou holandeses na platéia para constatar se conheciam Ruy Barbosa, o Águia de Haia.
Não se pode desanimar. Os ajustes virão com o tempo.
Vestidos de verde, os opositores no Irã votaram e apanharam depois das eleições. Mas não se conformaram com os resultados, que para muitos é fruto de uma gigantesca fraude. A imprensa ocidental, demonizada por Ahmadinejad, oscila nas suas interpretações.
Muitos acham que foram apenas uma ilusão as grandes manifestações vividas em Teerã. Outros acham que é preciso investigar, pois há fatos suspeitos. O primeiro deles foi antecipar o rito de reconhecimento da vitória, sempre consumado depois de três dias.
Nesta eleição, o reconhecimento foi feito em apenas algumas horas. Outra grande dúvida é a vitória de Ahmadinejad em Tabriz, região onde nasceu seu adversário na disputa, Hossein Mousavi. De um modo geral, ali sempre se vota nos candidatos da terra.
O mais importante, depois das manifestações em Teerã, é o fato de que o líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, autorizou uma investigação. As primeiras declarações das autoridades brasileiras, em Genebra, onde se encontram numa visita onde não se economizaram passagens, foram no sentido de legitimar a escolha de Ahmadinejad.
Foram mais realistas do que o próprio Khamenei, preocupado com a repercussão internacional do movimento reformista iraniano. Quando convidarem Ahmadinejad para uma visita ao Brasil, devem se lembrar agora do que não estava ainda muito claro quando ele quase veio ao nosso país: há forte oposição no Irã.
A Agenda Internacional do Brasil é o nome do livro de Amaury de Souza, que acaba de sair. Trata da política externa brasileira, de FH a Lula. Amaury trabalha em cooperação com o Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) um núcleo de intelectuais que se dedicam ao tema.
O livro é uma pesquisa feita na comunidade brasileira de política externa, isto é entre as pessoas que trabalham, estudam ou dependem, de alguma forma, das decisões nacionais sobre inserção do Brasil no mundo.
Não se trata de uma comunidade homogênea. Há divergências e Amaury chega a dividir as correntes, para efeito didático, em globalistas, regionalistas e pós-liberais. As nuances aparecem aqui e ali, por exemplo, na ênfase que a primeira corrente dá aos acordos internacionais envolvendo os países mais avançados.
Neste espaço, o mais viável é falar das tendências majoritárias. No momento, a preservação da democracia na América do Sul é considerada uma tarefa prioritária pela maioria dos entrevistados, que defende também a construção da infraestrutura comum, estradas, energia, telecomunicações.
O aquecimento global e o tráfico internacional de droga são vistos como os maiores desafios. A corrente isolacionista que existia no passado desapareceu. Quase todos elogiam o crescente papel brasileiro.
Não esperava, no inicio da democratização, que o Brasil andasse tão rápido. Na Comissão de Política Externa temos sempre visita de estudantes. Delegações de deputados de todo o mundo nos procuram com diferentes demandas.
São tantos os acordos para aprovar, tantas chances de diplomacia parlamentar, que era preciso qualificar gente, melhorar a estrutura. Os escândalos nos paralisaram. Mas a nova realidade do Brasil enfatiza a urgência da tarefa.